Os ‘neo sujeitos’ e a transferência: formas contemporâneas de subjetivação

Os ‘neo sujeitos’ e a transferência: formas contemporâneas de subjetivação

Londrina, 8 de agosto de 2026.

Trabalho apresentado no Sábado da Letra em Londrina.

Os ‘neo sujeitos’1 e a transferência: formas contemporâneas de subjetivação

Por: Monica Aparecida do Prado

Gostaria de partir de uma inquietação que, acredito, seja compartilhada por alguns. Cada vez  mais encontramos sujeitos cuja relação com a autoridade, com o saber e com a alteridade parece profundamente modificada. Não se trata apenas de uma mudança de costumes ou de uma diferença entre gerações. Há algo mais amplo em curso há algumas décadas: uma transformação do próprio laço social.

Essa constatação me conduz a uma pergunta que orienta esta exposição: Se a transferência se funda na suposição de um saber no Outro, o que acontece quando os lugares tradicionalmente investidos de autoridade e alteridade, deixam de ser reconhecidos como legítimos e passam a serem vistos com desconfiança?

É a partir dessas questões que proponho colocar em diálogo Jacques Lacan2, Dany-Robert Dufour3, Charles Melman4 e Jean-Pierre Lebrun5 com o objetivo de retomar, como cada um deles descreve, aspectos de uma mesma transformação histórica.

Vivemos, sem dúvida, um momento de extraordinário desenvolvimento técnico. Nunca tivemos acesso a tantos recursos para produzir, comunicar, calcular e armazenar informações. Em poucos segundos, resolvemos problemas que, há algumas décadas, exigiriam horas ou dias de trabalho. Entretanto, esse avanço não eliminou o sofrimento psíquico. Ao contrário, convivemos com o crescimento da angústia, da ansiedade, da solidão, da compulsão, das adições, dos déficits, dos fenômenos depressivos, das somatizações, das mostrações, dos espectros e das diferentes formas de mal-estar que atravessam a clínica contemporânea.

Freud já havia nos advertido de que o progresso técnico jamais coincidiria com um aumento proporcional da felicidade. Em O mal-estar na civilização,6 ele mostra que o sofrimento humano não decorre simplesmente das limitações impostas pela natureza, mas da própria condição de vivermos em sociedade. A civilização exige renúncias pulsionais que produzem, inevitavelmente, mal-estar. A questão que hoje se coloca, entretanto, é outra. Não se trata mais de perguntar como o sujeito suporta a renúncia ao gozo, mas de compreender o que acontece quando a própria cultura passa a pregar que essa renúncia não é mais necessária.

É precisamente essa transformação que os autores citados procuram compreender. Há décadas eles descrevem a passagem de uma cultura organizada pelo recalque para outra marcada pela imposição ao gozo e aceleração tecnológica participa desse processo, mas não é todo ele. Ela é um de seus efeitos mais visíveis, mas o núcleo da mudança encontra-se no enfraquecimento das instâncias simbólicas que, durante séculos, organizaram a relação entre Lei e desejo.

Antes desses autores, Lacan já havia formulado essa questão ao propor o Discurso do Capitalista.7 Trata-se de uma pequena modificação na escrita dos quatro discursos, mas cujas consequências são cruciais. Nessa nova configuração, desaparecem tanto a seta correspondente ao impossível quanto a barreira da impotência, produzindo uma circulação contínua entre o sujeito barrado ($) e o objeto a. Diferentemente dos demais discursos, nos quais esses elementos permanecem estruturalmente separados — preservando a divisão subjetiva —, o discurso do capitalista sustenta a ilusão de um acesso direto ao objeto de gozo, por meio dos objetos de consumo.

Lacan mostra justamente que o discurso do capitalista já não produz apenas uma circulação acelerada de mercadorias. Ele captura a própria economia do desejo. O Capital, elevado à condição de significante-mestre, organiza um discurso, isto é, dá consistência aos demais significantes e orienta as posições subjetivas. Ele define o que tem valor. Nessa medida, ele opera articulando o saber técnico (S2), produzindo determinados modos de subjetivação ($) e colocando em circulação uma infinidade de objetos de consumo (a).

Esse funcionamento implica uma verdadeira foraclusão da castração, - nos adverte Lacan - não porque a castração deixe de operar estruturalmente, mas porque o discurso passa a prometer que ela pode ser contornada, sustentando a ilusão de que toda falta pode ser preenchida e de que todo desejo pode encontrar satisfação mediante o consumo.

Essa formulação de Lacan oferece uma chave importante para compreendermos os autores que trago a seguir. A questão que atravessa todos eles é a mesma: o que acontece com o sujeito quando a cultura deixa de organizar o desejo pela falta de objeto e passa a organizá-lo pela promessa do perfeito encontro com ele? É essa pergunta que, a meu ver, também precisa orientar nossa reflexão sobre a clínica contemporânea.

A primeira formulação que resgato é a de Dany-Robert Dufour8. Seu ponto de partida é a constatação de que o capitalismo contemporâneo deixou de ser apenas um modo de organização econômica para assumir a função de operador simbólico da cultura. E vai além. Para ele, o mercado passa a ocupar um lugar que, durante séculos, pertenceu às grandes narrativas transcendentes. O liberalismo de mercado funciona como uma verdadeira religião substituta e como toda religião, oferece uma promessa de salvação - agora traduzida em riqueza, desempenho e satisfação permanente - e organiza uma nova moralidade, não mais fundada na renúncia, mas na posse.

Essa mudança altera profundamente a maneira como o sujeito se relaciona com o desejo. A interdição deixa de aparecer como condição da cultura e passa a ser vivida como uma restrição injustificada à realização individual. A promessa de satisfação ilimitada torna-se, ela própria, um princípio organizador.

Charles Melman9 desloca um pouco essa discussão e descreve os efeitos da reorganização da cultura sobre a economia do gozo, produzindo uma nova economia psíquica.

Para ele, o recuo generalizado da dimensão do sagrado não diz respeito apenas à religião, mas alcança igualmente as figuras tradicionais de interdição e autoridade - o pai, o mestre, o professor, as instituições políticas. Esse ponto é fundamental porque, sabemos que o interdito nunca foi simplesmente aquilo que impede o gozo. Paradoxalmente, é ele que lhe confere consistência.

Diante disso, Melman propõe uma inversão da formulação freudiana do sofrimento psíquico como o preço que a cultura exige pela renúncia pulsional. A cultura já não organiza o sujeito em torno da renúncia, mas da promessa de um gozo permanentemente acessível. O mal-estar não desaparece; ele muda de forma. Surge na contemporaneidade como efeito da própria exigência de gozar.

Já com Jean-Pierre Lebrun10 a preocupação se volta para aquilo que essa mutação produz nas condições de constituição do sujeito e propõe que - o que ele nomeou de perda de legitimidade - não se restringe às instituições políticas ou religiosas. Ela atinge precisamente o espaço em que o sujeito se constitui: a família, a escola e todas as instâncias responsáveis pela transmissão da Lei – ou seja à perda dos lugares a partir dos quais a palavra podia operar simbolicamente.

Dessa transformação, Lebrun deriva o conceito de perversão comum - ou perversão ordinária. Convém esclarecer que ele não está propondo uma nova estrutura clínica, mas uma "’neurose transformada’: não porque o neurótico se torne perverso do ponto de vista estrutural, mas porque o gozo perverso deixa de ocupar um lugar marginal para tornar-se objeto de fascínio e referência para o sujeito neurótico”.11

Lebrun sintetiza essa ideia ao afirmar que o sujeito contemporâneo parece aproveitar-se do questionamento do patriarcado e do sistema teológico-político para evitar confrontar-se com as exigências de sua estrutura. À medida que o patriarcado perde sua eficácia como operador da interdição, o recalque deixa de desempenhar plenamente sua função organizadora e o sujeito passa a sustentar essa renegação, tendo como ponto de apoio, o próprio discurso social.

Décadas se passaram desde a publicação dessas formulações. No entanto, longe de terem perdido atualidade, elas parecem ter adquirido ainda mais intensidade. O capitalismo contemporâneo parece ter dado um passo além daquele descrito por Lacan e o próprio sujeito se tornou ele próprio, a mercadoria. A economia digital opera mediante a captura contínua da experiência humana: nossos percursos, interesses, buscas, relações, tempos de permanência diante das telas, emoções e modos de consumo convertem-se em dados que podem ser armazenados, analisados e comercializados.

É nesse cenário que os algoritmos passam a ocupar um lugar decisivo, não apenas como instrumentos tecnológicos, mas como dispositivos privilegiados desse novo significante-mestre. Não ordenam nem proíbem; eles recomendam, antecipam e personalizam. Talvez resida aí uma das formas mais eficientes de exercício da autoridade na contemporaneidade pois os algoritmos não se apresentam como portadores de um saber superior; produzem a impressão de apenas devolver ao sujeito aquilo que ele já precisava. Entretanto, é justamente nesse movimento que participam da produção desse desejo. Não estamos, portanto, diante do desaparecimento da autoridade. Estamos diante de sua metamorfose. A autoridade já não se impõe pela palavra do mestre, mas pela eficácia dos dispositivos que organizam o campo das escolhas e participam da administração dos circuitos do gozo.

Por mais sofisticados que sejam os mecanismos de previsão e personalização, nenhum algoritmo é capaz de eliminar a falta constitutiva do sujeito. A castração, foracluída no discurso, permanece operando na estrutura. É por isso que a promessa de satisfação precisa renovar-se incessantemente, produzindo um circuito de consumo sem término no qual cada objeto rapidamente perde sua eficácia e deve ser substituído por outro. O fracasso não é um acidente desse sistema; é sua própria condição de funcionamento.

Assistimos assim ao surgimento de sujeitos profundamente atravessados - e, em muitos aspectos, colonizados - pelas tecnologias digitais, pelas plataformas e pelos gadgets que passaram a organizar o cotidiano, a experiencia com o tempo, com o público e privado, com a verdade e a mentira, entre outros.

Penso que essa nova configuração radicaliza muitas das preocupações formuladas por Lacan - e pelos autores citados - e confere novos contornos às formas contemporâneas de sofrimento psíquico, particularmente na clínica da infância e da adolescência. É justamente nesse ponto que a questão sobre a transferência retorna com toda a força. Se a mutação do laço social modifica a relação do sujeito com a autoridade, com o saber e com a alteridade, precisamos perguntar de que maneira isso repercute sobre aquilo que é condição de entrada em análise: a constituição do Sujeito Suposto Saber.

Lacan encontra no Banquete, de Platão, no diálogo em que Alcibíades declara seu amor por Sócrates, uma verdadeira alegoria da transferência. Alcibíades ama Sócrates porque supõe que ele guarda o agalma: um tesouro oculto sob uma aparência comum. O valor não está em Sócrates, mas naquilo que se acredita existir nele. É essa cena que Lacan retoma para mostrar que a transferência nunca se dirige propriamente à pessoa, e sim ao saber que se supõe encontrar nele.12

No Seminário XI13, Lacan desenvolve essa formulação quando introduz a noção de Sujeito Suposto Saber. A transferência instala-se porque o sujeito acredita que existe, no analista, um saber acerca daquilo que ele próprio ignora sobre si, mas experimenta no seu sofrimento. Não importa, para o investimento, que esse saber exista efetivamente. Basta que seja suposto porque a suposição cria um destinatário para a palavra e permite que o inconsciente se funde. Cabe ao analista, saber fazer com isso.

Ora, se o reconhecimento dos lugares de autoridade/alteridade sofre uma profunda modificação, a própria constituição do Sujeito Suposto Saber tende a tornar-se menos evidente, porque o discurso social já não favorece, como outrora, o investimento espontâneo de certos lugares como depositários de um saber. Seria possível concluir daí que esses sujeitos já não podem entrar em análise? Todos nós, de maneiras diferentes, continuamos sendo encontrados por sujeitos que estabelecem transferência, que endereçam sua palavra ao analista e que produzem um trabalho analítico consistente. A questão, portanto, não é saber se ainda há transferência, mas compreender como ela se instala nas condições subjetivas produzidas pela cultura contemporânea.

A transferência não foi propriamente uma invenção da psicanálise. O que essa inventa é o seu manejo. Enquanto seres falantes, estamos inevitavelmente submetidos à linguagem e, por isso mesmo, à necessidade de dirigir nossa palavra a um outro. A entrada do sujeito na linguagem produz uma falta que jamais consegue ser plenamente simbolizada. É essa falta que continuamente o impele a um outro.

Existe sempre um interlocutor a quem o sujeito dirige sua palavra na tentativa de compreender aquilo que, sozinho, não consegue reconhecer em sua própria história. É justamente aí que se situa a função do analista que aceita o lugar, sem se confundir com ele. Como nos diz Gerard Pommier14:

Desde que o saber se associe livremente, ele ruma para o que o dissocia. Abandonado a sua própria encosta, desdobrando-se sob a Liberdade vigiada de uma transferência plena do tesouro do seu complemento, ele se disjunta.(...) Uma impossível complementação anima agora o movimento da transferência. Um saber, faltoso do saber que lhe daria sentido, procura seu irmão perdido no analista. É a este último que se endereça uma palavra truncada de sua inacessível metade.(pag.85)

Essas observações permitem compreender melhor a especificidade dos sujeitos que encontramos hoje na clínica. Se o discurso operador procura eliminar a falta, oferecendo objetos encacháveis à demanda, é comum que sujeitos que procuram um analista o façam na mesma lógica. Querem o especialista que explica, o técnico que resolve, o terapeuta que oferece estratégias de adaptação o consultor que orienta escolhas. Ceder a qualquer uma dessas convocações significa abandonar justamente aquilo que define a experiência analítica. Se o discurso do capitalista tende a produzir consumidores cada vez mais adaptados aos circuitos do gozo controlados por ele, a psicanálise continua apostando na possibilidade de produzir sujeitos, escutando suas demandas e fazendo furos nelas apostando que o desejo possa surpreender o próprio sujeito. O analista não reintroduz a castração - ela nunca deixou de operar na estrutura -, mas sustenta um lugar em que seus efeitos possam novamente encontrar inscrição simbólica.

Enquanto o discurso capitalista converte o tempo em produtividade e eficiência, a psicanálise restitui o tempo de compreender onde Lacan situa um intervalo indispensável (entre o instante de ver e o momento de concluir), no qual o sujeito pode produzir uma elaboração própria. A escansão, o corte, o manejo do tempo variável das sessões e a própria aposta no ato analítico são modos de sustentar, na prática, aquilo que o discurso de renegações tende a apagar.

A advertência de Lacan15 segundo a qual deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época, serve como uma sentinela. Alcançar a subjetividade de nossa época significa reconhecer as novas formas de subjetivação produzidas pelo discurso contemporâneo para, justamente por isso, sustentar com ainda mais rigor aquilo que permanece invariável em sua ética. Quanto mais o laço social promete abolir a falta, reduzir o tempo à produtividade e transformar o desejo em objeto de cálculo, mais necessário se torna um discurso e uma prática que preserve o impossível como condição da existência. Talvez resida aí, ainda hoje, a potência subversiva da psicanálise.

1 Termo usado por Jean Pierre Lebrun no livro “LEBRUN, Jean-Pierre. A perversão comum: viver juntos sem outro. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2010.

2 Jacques Lacan (1901–1981), psiquiatra e psicanalista francês de Paris que desenvolveu uma das mais influentes releituras contemporâneas da obra de Freud.

3 Dany-Robert Dufour (1947–), filósofo francês, dedica-se à análise das transformações da subjetividade e do laço social produzidas pelo capitalismo contemporâneo.

4 Charles Melman (1931–2022), psiquiatra e psicanalista francês, aluno de Lacan e fundador da Association Lacanienne Internationale, formulou a hipótese de uma “nova economia psíquica” marcada pela passagem de uma cultura fundada no recalque para outra orientada pelo acesso direto à satisfação.

5 Jean-Pierre Lebrun (1945–), psiquiatra e psicanalista belga, investiga os efeitos da crise das referências simbólicas e da autoridade sobre a subjetividade contemporânea, tendo desenvolvido o conceito de “perversão comum (ou ordinária)”

6 FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: FREUD, Sigmund. Obras completas, vol. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Publicado originalmente em 1930).

7Lacan introduz os quatro discursos no Seminário 17 — O avesso da psicanálise (1969–1970), formulando-os como diferentes modos de ordenação do laço social a partir da circulação de quatro elementos — S1, S2, $, a — por quatro lugares. O chamado “discurso do capitalista” é apresentado posteriormente, em 1972, na conferência Do discurso psicanalítico, realizada em Milão. Trata-se de uma modificação do discurso do Mestre, caracterizada por uma alteração na circulação dos termos e por uma aceleração do circuito entre sujeito e objeto de gozo.

8 DUFOUR, Dany-Robert. O Divino Mercado: a revolução cultural liberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2008.

9 MELMAN, Charles. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Entrevista conduzida por Jean-Pierre Lebrun. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2005

10 LEBRUN, Jean-Pierre. A perversão comum: viver juntos sem outro. Tradução de Procópio Abreu. Rio de Janeiro: Campo Matêmico, 2008

11 LEBRUN, 2008, p. 87.

12 LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: A transferência (1960-1961). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.

13 LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.

14 POMMIER, Gérard. O amor ao avesso: ensaio sobre a transferência em psicanálise. Tradução de M. S. C. S. de Andrade. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

15 LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 238-324.

por: Monica Aparecida do Prado