Curitiba, 30 de outubro de 2024.
IV Colóquio Internacional da Letra Associação de Psicanálise: O corpo na Psicanálise.
Corpo, significante e o imperativo contemporâneo.
Por: Monica Aparecida do Prado
Boa tarde a todos, inicio minha fala manifestando meu agradecimento à Letra - associação de psicanálise – pela oportunidade de dividir com todos os presentes, o que experimento como inquietações na minha prática. Quero dizer também do quanto me sinto honrada de fazê-lo na presença de psicanalistas tão brilhantes e cujas produções trouxeram luz à minha prática desde o início.
Para o senso comum, o corpo é o aparato anátomo-fisiológico com o qual nos apresentamos ao mundo, tomado como sinônimo do eu. Facilmente, nos confundimos com ele como se só ele fossemos, mas nossa existência o supera e transcende. Preexistimos a ele no imaginário de nossos pais - por exemplo - e se morremos, permanecemos “presentes” ainda que nossos corpos jamais sejam vistos novamente. Então, embora o corpo seja uma dimensão que possa nos compor e até identificar, não alcança nossa imensidão.
Sobre o corpo, Rubens Alves escreveu na crônica 'Lagartas e borboletas', do livro "A alegria de ensinar". São Paulo: Ars Poética, 1994, :
“(...) e o que se descobriu é que o corpo, esta coisa que aparece como mistura de carne, sangue e nervos, não é feita destas coisas. O corpo é feito de palavras. Carne sangue e nervos são apenas uma fina camada visível que envolve um segredo invisível, uma estória que mora em nós.”
E foram essas histórias que convocaram a curiosidade do Dr. Sigmund Freud a respeito de corpos sem lesões justificáveis, mas que disfuncionavam, que o fez avançar sobre questões que o levaram a uma ruptura metodológica na compreensão das chamadas “doenças nervosas”, cujas manifestações estranhas, eram incompatíveis com o aparato anatomofisiológico. À medida que a escuta de Freud avançava na etiologia dessas enfermidades, ele constatava que estas tinham uma curiosa relação com as estórias contadas por suas pacientes a respeito de seus dramas cotidianos. Ele, que até então compreendia o corpo como subscrito numa funcionalidade mecânica, descobre um corpo diferente, que sofria uma influência escandalosamente subversiva das palavras e dos afetos. O que as histéricas contavam por meios de suas conversões, eram segredos. Surge então, para Freud, um corpo pertencente a outro registro: o da palavra, que nada tem a ver com a estruturação a partir da necessidade, que fosse movido por instintos, mas sim, um corpo erógeno, articulado numa teoria da sexualidade. O sintoma histérico passou a ser considerado então não mais uma simulação, mas a expressão de um conflito inconsciente, expressão da realização de um desejo recalcado, uma busca de satisfação pautada na insatisfação cuja sintomatologia incidia no corpo.
O corpo para Lacan, é o corpo marcado pelo significante. Somos um ser “desnaturado”, para quem nascer não corresponde ao resultado da reprodução bem-sucedida de dois de nossa espécie. Precisamos também nascer para o mundo de linguagem, mundo este que habitamos e por quem seremos habitados. Como nos diz Soller (2019)1 “assim, há dois atos de nascimento: o nascimento do indivíduo vivente que a sociedade registra e, depois, o que podemos denominar o nascimento do sujeito (...)” (p. 183). E é desse nascimento do sujeito que depende o bom funcionamento do corpo de carne, o controle e desenvolvimento de suas funções, bem como o uso que esse sujeito poderá fazer dele. Nem sequer nascemos humanos, e para o sermos, faz-se necessário contar com um outro, não apenas para nos cuidar, como também para nos ensinar o que é ser um da nossa espécie. É preciso existir na específica demanda de um Outro para nascer como sujeito do desejo, efeito da linguagem, determinado pelo inconsciente e configurado em três registros, inseparáveis, (R,S,I) que juntos formam uma estrutura:
Imaginário: em que a prematuridade do filhote humano não lhe permite uma experiencia com o próprio corpo senão de forma parcial e despedaçada, sem uma totalidade organizada. Ele necessita de um outro que lhe antecipe essa integralização através de um olhar de reconhecimento e confirmação. Ao problema real do organismo (a prematuridade) haveria uma solução dada pelo imaginário. O estádio do espelho é esse momento de antecipação do domínio do corpo concomitante a constituição do eu e a imagem do corpo próprio assumida pelo sujeito.
Simbólico: o Outro lhe oferece sua rede de significantes para que nela o futuro sujeito se processe. Sem chance de defesa ou escolha, existe a necessidade de passar pelos significantes do Outro para advir à condição de falante e desejante.
Real: Corpo como sinônimo do gozo
Em 1975 Lacan acrescenta à primeira concepção borromeana do sintoma, um quarto nó, nessa que vai chamar de Sinthoma com TH postulando que o sinthoma é aquilo que o sujeito dispõe para manter junto os três registros. Não há sintoma que não toque no corpo, nos ensinou Lacan, mais para o final da sua obra. Abro um pequeno parêntese aqui para advertir que no caso da psicossomática, pode haver um corpo, ou um pedaço dele, em cujo processo de construção de significantes fracassou.
O sintoma se resolve em uma análise. Freud, nos propunha a cura através da fala. Nossa subjetividade se organiza em articulação significante e está conectada a um sistema simbólico que define e regula o campo social e esse guarda seus modelos de imperativos de gozo. Seus totens, que produzem a sintomatologia condizente a cada um deles. Enquanto a psicanálise segue avançando, mantém no seu radar as mudanças que atravessam esse social, aos totens a quem nos rendemos e aos quais adoramos de forma sacrificial, como nos apontou Dr. Alfredo em um dos capítulos do “Livro Negro da Psicopatologia Contemporânea”. A pelo menos cerca de 60 anos, testemunhamos um movimento engendrado pelo discurso da ciência e da tecnologia que reduz todos os sintomas e sofrimento humano a um acontecimento de corpo na sua dimensão exclusivamente biológica. Justamente esse corpo que, sabemos por experiencia in-conporada e por ofício, não existe. Nesse contexto, a ciência tem nos posto como imperativo, a padronização de comportamentos - mediante a argumentos empíricos e estatísticos – que reduzem os conflitos neuróticos à classificações rasas e massificadoras, produzindo uma série de pretensos iguais, desprovidos de subjetividade, de historia e segredos, como eram aquelas que inauguraram a psicanálise. Estamos num tempo em que o ficção e a tecnologia nos propõe robôs que aspiram por serem cada vez mais humanos e humanos que parecem ser cada vez mais robotizados. A padronização avança inclusive sobre nossos corpos. Essas padronizações diagnósticas classificatórias, pretendem a diminuição ou mesmo a extinção do mal estar de viver na cultura, pois nos poupa o trabalho necessário de escutar e entender o sujeito conflituoso, volátil e nunca inteiro que somos todos nós, pela condenação de sermos estruturados na linguagem e jamais encontrarmos um significante que nos defina de vez por toda. Compartilho com vocês um poema:
Tem, dentro de mim, milhares de outras pessoas, bichos, plantas, fungos. Tem, dentro de mim um universo de perguntas e caminhos possíveis. Escrevo esse e-mail e sei que só poderia escrevê-lo uma vez, porque, a cada segundo, uma nova figura toma parte dos meus dedos e aperta os botões para fazer palavras. A cada instante, eu diria outra coisa, por isso não confio nos textos que escrevo, desconfio de quem penso ser. Sei que não sou uma coisa pronta, mas um conjunto de infinitos em crescimento. E por isso leio o que escrevo como se viesse de um estranho. Porque veio. A solidão não é um vazio, mas uma reunião de estranhos que somos nós mesmos. Tamara Klink 2
O mesmo, caberia, sem dúvida em várias classificações do nosso Código Internacional de Doenças. EM RSI, sem 22 aula de 13/5/1975 Lacan nos diz “...o sintoma não pode ser definido senão como a maneira como cada um goza do Inconsciente enquanto que o Inconsciente o determina.” Enquanto Freud e Lacan retiraram o sintoma do campo exclusivo da patologia médica para colocá-lo sob responsabilização do sujeito por seu sofrimento, tendo em vista um caminho de gozo estabelecido, cuja satisfação se dá através do sofrimento, o discurso atual prevê que o sofrimento é indiferente ao seu desejo e à sua responsabilização, e fica reduzido a uma pura disfunção, tomando o corpo como uma máquina com defeito. A estória do sujeito e, portanto, sua neurose, seus caminhos de gozo, não tem lugar e sua fala, portanto, também não.
Aproximadamente nas últimas duas décadas, as classificações das psicopatologias, como o DSM por exemplo, apontam para uma disfunção orgânica como determinante do sintoma. Como nos aponta Teixeira (2014)3, “a causa é determinada ao inverso; é a resposta ao medicamento que vai determinar a posição do quadro na classificação.(...) quadros extremamente diferentes são reunidos na mesma classificação com a justificativa de que respondem aos mesmos medicamentos.”(p.28).
Atualmente, os corpos doem. Doem muito. Tanto pelo efeito dos infinitos acometimentos inflamatórios e reações autoimunes, como pelas automutilações escarificantes, pela busca (aparentemente sempre insuficiente) por corpos perfeitos através de intervenções cirúrgicas ou exercícios excessivos. Também temos corpos que subvertem a isso e ficam imensos e inadequados, extremamente sedentários e que também doem incessantemente. Corpos que nem dormem.
Há décadas, as descrições de quadros clínicos como Neurose e Psicose foram suprimidas, dando lugar a descrição de Transtornos e Distúrbios. As razões disso, são certamente econômicas. Não é novidade que os psicofármacos são as vedetes do mercado da indústria farmacêutica atual juntamente com os medicamentos para a disfunção erétil e que as medicações para doenças inflamatórias e as autoimunes estão entre as mais vendidas no mundo. Também não é segredo que mais da metade dos responsáveis pela Edição atual do DSM receberam oficialmente o financiamento da Industria farmacêutica.
Teixeira (2014) aponta que “ a adoção de distúrbio e transtorno dilui (...)a distinção entre neurose e psicose, dando aval para o tratamento do sintoma isolado de uma etiologia. Trata-se aqui de uma conhecida estratégia empresarial, que visa expandir o mercado atingindo novos setores. No caso a expansão se dá a partir da neurose para a psicose para chegar ao comportamento humano (...)ou seja, a inclusão de traços ou condições próprios da vida psíquica cotidiana, como luto, na categoria do patológico, sendo, portanto, passiveis de serem medicados” (p.28 e 29). E para cada década, ou um pouco menos, temos explosões de categorias diagnósticas a modalidades epidêmicas, expondo uma contradição questionada pelo Dr. Alfredo, no mesmo “Livro Negro”4 quando ele pergunta “Como se declara uma epidemia de uma doença que já tem um remédio para curá-la? [...] Nada mais prático que atribuir um grande conjunto de sintomas a uma enfermidade (ou síndrome) para cuja cura já se conta, antecipadamente - supõe-se - com o medicamento apropriado.”(p. 231). Assim, de tempos em tempos, a medida que novos medicamentos são lançados, novas ondas de diagnósticos a acompanham e fazem os casos explodirem em números no mundo todo, e sendo normatizadas no discurso cotidiano.
Na terça-feira da semana passada, ao chegar no meu consultório, fui pegar o elevador e o rapaz que entrou nele antes de mim fez a gentileza de segurar a porta do mesmo para me esperar. Nessa fração de tempo, o elevador solta a mensagem sonora em uma voz feminina que diz repetidamente “favor liberar a porta. Favor liberar a porta”. Eu quando chego ao elevador e a porta finalmente se fecha, agradeço a gentileza e faço uma brincadeira dizendo “tá bem, a porta já está liberada” ao que o rapaz complementa “Nossa, que moça nervosa. Ela tem TDHA”.
Além do avanço sobre aquilo que seria uma psicopatologia da vida cotidiana, a indústria farmacêutica criou mercado inclusive ampliando sua faixa etária. Todas as crianças, que se comportam como crianças um pouco mais difíceis, sofrem de algum distúrbio. No que tange ao infantil a indústria farmacêutica, há décadas, também nada de braçada. É claro que as doenças existem e que o real nos impõe seus limites, mas claro que hoje vos falo do exagero.
“Aos 4 anos, os pais já desistiram de seus filhos” disse-me uma educadora que trabalha com educação infantil, na idade de 1 a 5 anos, há quase 40 anos, para dizer que, próximo a essa idade, os pais, perdidos na sua função, acuados diante de crianças que protestam, as medicam. Crianças incomodam. E como diz Dr. Alfredo, “crianças que não incomodam, não são crianças”. Crianças diagnosticadas com transtornos, em muitos casos, rendem os pais do papel incomodo da transmissão da lei - que nunca se dá, sem um tanto de frustração, conflito e até uma certa violência- inapropriados para um mundo em plena transformação tecnológica facilitadora de todas as coisas. E nesse sentido, os diagnósticos isentam. Num bate papo, uma dessas mães me disse que quando o filho passou a ser medicado, a vida dela se tornou outra (o fez juntando as mãos em agradecimento aos céus). “Fulano antes me dava muito trabalho para fazer as tarefas”.
Outra educadora conta como ela tem ficado impressionada pela quantidade de seus alunos de graduação que carregam dentro de seus pertences, suas cartelas de medicações. Ela descrevia a cena quase que surreal desses alunos, todos sentados, cada qual em suas carteiras de estudos tendo sobre elas as respectivas caixas de medicamentos. Ela acredita que esses alunos fazem parte de geração que recebeu medicamentos desde a infância e para os quais, seus comprimidos viraram pequenos apêndices. Talvez essas crianças tenham sido privadas de reais ensaios e elaborações que são necessárias para a antecipação das regras sociais e da vida adulta, cujas brincadeiras e conflitos infantis oferecem, de modo que aqueles pequenos amuletos farmacêuticos funcionam, entre outras coisas, como objetos contra fóbicos.
Como quer essa lógica, não há sujeito cindido, equivocado, errante, movido por desejo, acometido pelo recalque e, portanto, conflituoso. O que se quer prometer com a medicação são organismos pasteurizados e sem rasgos, furos, mas pelo menos eufóricos, já que felizes, implicaria em sujeitos. Mas, apesar de tudo isso, os corpos ainda doem e doem muito. Relembro, uma jovem senhora atendida me dizia “tenho dores no corpo todo. Não sei o que é. Nenhum médico sabe. Meus exames não dão nada. Mas basta que eu faça esses movimentos (e expões as mãos e dobre e desdobra os dedos) que as articulações doem.” Tinha um diagnóstico de uma leve artrite, mas que, para os médicos, não justificava a intensidade das dores e o fato de essa não sucumbir aos medicamentos. Parece para mim que esse era um sujeito que, ao não responder à medicação, resistia ao “cale a boca” oferecido pelo fármaco e insistia em contar sua história, à revelia da padronização. Quando ela então pode falar, conta que casou-se muito menina e que achava que não tinha um bom casamento. O marido a proibia de tudo e seus pais concordavam com ele. Tudo ao longo da vida conjugal dos dois sempre foi muito custoso pois ele era muito ciumento e sempre queria - nas palavras dela - controlá-la e dominá-la. Num dado momento de emoção, diz “meus pais sempre me aconselharam a não entrar em “artrite” com ele”. Quando interrompo e digo “Como?” Ela se dá conta de seu ato falho e tenta dizer “atrito”, mas acaba repetindo o significante “artrite”. Ao ser convidada a falar desse equívoco, ela acrescenta que quanto tomou a decisão de cursar a faculdade que sempre sonhou, foi muito “duro” pois seu marido foi contra e seus pais não a apoiaram. Então ela disse “mas eu não posso me dobrar”. Eu repito a ela a frase, fazendo o mesmo movimento de dobrar e desdobrar os dedos que ela usava para explicar suas dores.
Há também corpos que doem sem diagnósticos, e lembro-me de uma de uma jovem de 22 anos, que me olha com veemência e diz “O meu peito dói Monica, dói mesmo! Eu sinto uma dor que nem consigo descrever. Alguém já te disse isso?” E eu lhe respondo “sim, você!”. Com ela entendo que certamente esse discurso científico que apaga o sujeito da sua história e de suas manifestações sintomáticas provoque em muitos, um receio de que seu sofrimento possa ser considerado fingimento. Nesses casos, nesse mundo estatístico, a receita médica garante o “lastro” de legitimação para seu sofrimento.
Diante dessa ordem mundial, nossa grande batalha atual talvez esteja em permanecermos firmes em garantir esse lugar da fala e do sintoma como uma articulação significante. A psicanálise é aquela que, desde Freud e até hoje, necessita constantemente refundar o estatuto do corpo como lugar da metáfora e escutar o que ele tem a dizer. Oferecer o espaço para o não saber, para o equívoco, para a cura pela palavra que envolve a estória de sujeito, seu mito, seu cardápio de gozo na fantasia e não sucumbir à classificação, cerceadora da liberdade do sujeito em compor sua trajetória, pois o discurso padronizador solicita, em última análise, que a cadeia significante se congele, que o furo central se obture (imaginariamente). A psicanálise continua a ser a resposta para a foraclusão do sujeito pela ciência. E talvez as epidemias de sofrimentos psíquicos devastadores e marcados pelas atuações, pelas manifestações sintomáticas que “atacam os corpos” ou os superinvestem, pelos suicídios, pelas marcas de mutilação no corpo sejam um apelo e uma reinvindicação ao lugar da fala, da estória, ao lugar do significante onde o atual discurso social oferece o “cale a boca” através da medicação, das telas e do discurso autoritário que exige a produtividade, a euforia e a potência.
Desse ponto de vista, o lugar da escuta psicanalítica é o lugar da resistência.
1 SOLER, Collete. O em-corpo do sujeito. Seminário 2001-2002. Salvador: Ágalma, 2019.
2 Poema “Solidão”, publicado na conta @tamaraklink, no dia 17 de maio de 2024.
3 TEIXEIRA, Marcos do Rio. Vestígios do Gozo. Salvador: Agalma, 2014.
4 JERUSALINSKY, Alfredo; FENDRIK, Silvia (Orgs). O livro negro da psicopatologia contemporânea. São Paulo: Via Lettera, 2011.